27.11.09
filosofia
queres mais cru, apaga o lume - dizia o homem do fogareiro - e as minhotas a dançar à volta da fogueira, mãos dadas, pés descalços, o vento a espalhar fagulhas por toda a parte, o pinhal a pegar fogo, os casais de namorados a fugir, nus, para se deitarem ao mar de ofir, queres mais cru, apaga o lume - dizia o homem do fogareiro enquanto se ria - e a maria vitória a tomar o palácio de fão enquanto se apagavam as luzes de toda a localidade, certos dias um gajo acorda estremunhado dos sonhos e não sabe bem em que realidade se encontra, os braços dormentes, as mãos sujas, as palavras todas misturadas dentro da cabeça, enfim, dizes sempre isto, pois, pois, pois, queres mais cru, apaga o lume - o homem do fogareiro tinha um bigode à artur jorge - e ao balcão um outro tipo de barbas compridas, as teses de mestrado a empilharem-se a uma ponta, os casais de namorados, nus e completamente encharcados, a beberem limonadas na esplanada, como se fosse verão e a tarde chegasse agora ao fim.
contraste
tinha sempre palavras muito pequenas para o que precisava de ser dito. todas as mulheres com a mania que são boas a lerem henry miller enquanto esperam pela sua vez no cabeleireiro. as febras a assarem na brasa, a telenovela da tarde, as conversas de todos os dias. todas as mulheres com a mania que são boas com a mania que escrevem coisas interessantes. os homens cheios de tesão atrás delas, as marias vitórias a gritar que se acabou a história. a febra ainda crua no momento da dentada.
um dia destes
um dia destes era capaz de pôr lisboa em viana do castelo, as minhotas a dominarem o conselho de ministros, o siza a fazer bibliotecas pelo país todo, as manhãs mais claras do que o sol, o vento forte, o mundo ao contrário, um dia destes.
26.11.09
apetece
às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. às vezes estou aflito, outras vezes eu evito. em situações eu me levanto, horas depois eu fico em pranto. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. numa hora tão pouco, noutra hora tanto. a mão que me segura é a mesma que me empurra. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece. alguns dias eu acordo-me, outros adormeço-me. a vida segue assim, a vida segue em mim. às vezes apetece-me, nem sempre me apetece.
neve
um dia haverá neve sobre o mar, dizia o louco no miradouro. um dia haverá neve sobre o mar e os nossos corpos irão tremer de frio como terramotos. nesse dia, quem sabe, adivinharemos de olhos fechados os nomes das marés.
prédio
o prédio deserto não é deserto, é uma voz algures no andar de cima, passos silenciosos nas casas, um pássaro morto encontrado numa varanda. o prédio deserto não é deserto, o barulho das canalizações, os livros que se mexem nos armários, o vento nas janelas. o prédio deserto é ainda um resquício da enchente, uma música entoada pelo espaço, no vazio que ficou dentro do prédio, dentro de nós.
cefaleia
a cabeça não rebenta, a cabeça fica, fica sempre no mesmo lugar, por cima do pescoço, como se mandasse, a cabeça não rebenta, a cabeça fica, mas quando fica a doer, a cabeça dói, a cabeça dói, e tudo se rebenta à nossa volta, menos a cabeça.
25.11.09
invento
inventam as coisas com oceanos dentro e acabamos por sentir que o oceano é o meio que reparte, que divide, que afasta. inventam as coisas com ar dentro e acabamos por sentir que o ar é o exclusivo, o medicamento, o veneno. inventam as coisas com gente dentro e sentimos sempre que vamos ficar de fora. inventam as coisas como se inventassem coisas e nós, não tendo como as mudar, perdemos o sentido da invenção.
voz
um fio de voz escorre pela parede de um mundo que ainda não existia, mas que nós já tínhamos, sem dúvida, criado na ausência um do outro. agora o encontro é o desencontro e tudo é uma fusão de vontades ou desejos que ainda não conseguimos exprimir. um fio de voz escorre pela parede, quem o provasse poderia dizê-lo doce, cheio de cama, sonho, aproximação.
desenho
o meu desenho é o tamanho da chuva contra a janela que ficou aberta. o imaginar da porta que se vai abrindo empurrada pelas gotas. as lágrimas que nunca existiram, como se fossem filhas do nada, no chão da sala. o meu desenho é esse momento que nunca aconteceu. que poderia ter acontecido. num dia como o de hoje, talvez.
24.11.09
mais eu
o que se muda, muda-se, e nem sempre damos por isso: observo-me agora a ser outra coisa que eu não era, mais completa, sorridente, feliz, e eu nem sempre dou por isso, o que se muda, muda-se, ficou mudado, eu sou agora mais eu.
pedido
o pedido ficou atrasado, o telefone a tocar, como é que eu vou perceber o que me pedem, se quem me pede ainda percebe menos do que eu? o pedido ficou atrasado, o telefone por atender, os gritos a ecoar, a ecoar, na sala sala sala sala...
mim
tu estás em mim e eu estou quase a chegar. fazes as tuas magias, as tuas poções, eu apenas vejo e acredito. tu estás em mim e eu estou quase a chegar. apaga-se a luz, contam-se os passos, eu apenas sinto e acredito. tu estás em mim e eu estou quase a chegar. e por vezes dizes que não, mas também tu acreditas.
23.11.09
dom
o nosso discurso há-de ser todos os lugares vazios na plateia. por entre as cadeiras surgirão os passos despedaçados dos cadáveres. o nosso discurso há-de ser todos os silêncios feito um só. por entre os olhares que não existem a mansidão. e depois atearemos o fogo final das nossas gargantas. tossiremos um pouco, apertaremos as mãos. saíremos incólumes da grande aventura da vida.
oração
todo o romantismo é uma arma sobre uma secretária, um quarto dos fundos, um mapa sem norte. todo o romantismo é uma praia vazia, o vento sem gente, um delírio com os pés no chão. diz-me o maior dos teus segredos e eu dir-te-ei quem serás. a nós, ninguém nos poderá nunca parar. nunca.
cavaleiro
de lança quebrada entre os dedos, o cavaleiro segue a sua dança - o caminho que não se faz, a música que não se entende - o olhar mortiço, o cabelo despenteado, a barba por fazer. de lança quebrada entre os dedos, no fundo do mar. no fundo do mar.
20.11.09
morrer a escrever
não se morre a escrever, diria o anjo sobre o ombro do escritor, ninguém morre a escrever. entre o sopro da morte e a sua chegada, a caneta cai e os olhos do escritor concentram-se nas suas últimas palavras, naquelas que ainda conseguiu desenhar antes da fragilidade dos dedos e nas outras que ficarão por escrever. não se morre a escrever. morre-se a ler. morre-se a pensar no que se poderia ainda escrever se não fosse a morte, se não fosse a ideia de que falta sempre ainda qualquer coisa, o que nos torna ansiosos e incompletos, mesmo no momento da morte.
ae
uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: o nome da tua cidade aparece escrito num local próximo da uma lixeira, e a tua cidade passa a ser identificada como a própria lixeira.
ae
uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: pensas que vais na direcção certa e quando te apercebes do erro, já é tarde para voltares atrás.
ae
uma placa de autoestrada pode mudar uma vida: um homem que chegou atrasado ao local do encontro, local que a mulher já tinha abandonado, por achar que ele não viria.
18.11.09
segredo
não o foste mas desejaste, ser mulher sobre as chamas das pequenas cidades de província, aglomerados populacionais de primos e primas, rebentadas as costuras da gravidez sempre adiada, agora já sabes quanto custa um anúncio no jantar de família. nunca tiveste hora marcada, namoraste os rapazes como quiseste, foste um barco sem remos no pequeno ribeiro do porto novo, foste um inglês perdido à procura dos fortes das linhas de torres, foste um automóvel perdido no escuro das arribas e agora, agora, ainda me vais saber dizer quem és? não o foste mas desejaste, ser mulher. e não há segredo tão mal guardado que te ecoe mais forte dentro do crânio.
boutique
compra as peças de roupa que considerares necessárias para a inauguração do teu corpo, a cabeça perdida e um pacote de lenços de papel, sabes que na tua vida sempre houve espaço para duas velhas sentadas à porta de casa, a contar os automóveis, a beber das caleiras, e traz o teu vestido novo, a saia rodada, o que escolheste, e danças em cima da mesa enquanto as luzes se apagam, é a inauguração do teu corpo, o homem grande diz, e as velhas entram na casa e surpreendem-te, tens os pés em cima do vestido, repreendem-te, tu olhas a roupa nova amarrotada e choras.
terminal
tenta aprender o caminho desde a cama até à janela em passinhos de bebé, leva na mão um copo de vinho e uma bolacha, concentra-te, concentra-te, nada pode falhar, demora o tempo que quiseres, o tempo que quiseres, ensaia o discurso, mentalmente, apenas, e salta, salta até lá abaixo, para sempre.
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