25.5.12

Antes e depois de 1996 (5)

A literatura é um lugar estranho. Passamos a maior parte do tempo a tentar fazer dela o que ela não é. Às vezes, resulta, porque as pessoas esperam sempre coisas diferentes daquilo que as próprias coisas são. Esperam grandes discursos, temas que possam compreender, polémicas que possam ser resumidas numa página de jornal ou nos trinta segundos do telejornal. A literatura não é nada disso. Embora muitos de nós preferíssemos que ela assim o fosse. José Saramago deu aos livros, em Portugal, acabou por acrescentar aos livros, todo esse mundo que não era o da literatura. E com isso ganhou o Nobel. E com o Nobel um lugar na literatura. A literatura é um lugar estranho. Antes e depois de 1996.

24.5.12

Antes e depois de 1996 (4)

Uma coisa é segura, José Saramago ficará como a grande figura da literatura portuguesa do século XX. É difícil tentar prever se os seus livros serão ou não lidos, embora arrisque que, para além do Memorial do Convento, outros dos seus livros serão sempre mais lembrados pelos polémicos temas do que pela qualidade literária. É essa a condenação que está reservada para os autores que conquistam o seu lugar, também (ou sobretudo?), no espaço mediático. José Saramago entregou-se sempre a causas polémicas pelo mundo inteiro (Fidel Castro, os Chiapas, a luta contra o Deus da Igreja Católica) e foi isso, em última análise, o que lhe terá garantido um lugar de reconhecimento público que nenhum outro escritor português conseguira. Por outro lado, não deixa de ser uma ironia histórica que o seu reconhecimento tenha, em parte, beneficiado da máquina propagandística espanhola, a partir do momento em que escolheu a Espanha como local de residência.

23.5.12

Antes e depois de 1996 (3)

Quando um autor tem o condão de nos fazer sentir isso, a nossa tentação é perseguir os seus outros livros, em busca da repetição dessa sensação, como se fossemos viciados no consumo de determinadas sensações. E a má notícia que José Saramago tinha para mim é que, em mais nenhum outro livro, eu poderia encontrar essa satisfação de leitor encantado.  Não me encontrei no Evangelho segundo Jesus Cristo, nem no Ensaio sobre a Cegueira, nem nas Intermitências da MorteSaramago fez a sua carreira a escrever bem, uma escrita que só os grandes nomes clássicos da literatura mundial conseguem assegurar, mas faltou-lhe sempre o brilho que reserva, para além da racionalidade, um lugar no coração dos leitores.

22.5.12

Antes e depois de 1996 (2)

Mas o Memorial do Convento, nesse ano de 1996, teve o condão de me agarrar a atenção, talvez porque eu fosse um jovem freak, interessado pela história do meu país (coisa que, na sua maioria, eu não compreendia, como é que um país tão pequeno foi capaz de produzir tanta tecnologia e gerar tanta riqueza, para depois, em meras operações de um insuportável laxismo católico-romano, se tornar naquilo que sempre foi, um país dependente da boa vontade de estranhos), ou talvez porque eu vivesse (como ainda vivo) bem perto de Mafra e toda a história daquela imensa construção que inunda a paisagem da pequena vila do oeste de Portugal fosse, afinal, uma coisa bem próxima, capaz de ter envolvido alguns dos meus antepassados, capaz de ter decorrido em terrenos que eu acabei por vir a pisar. Fiquei agarrado, não a Saramago, mas à sua participação nesta ideia de que a literatura serve para nos fazer sentir na pele aquilo que o ser humano já foi, vai ser ou poderia ser se, em algum momento, as coisas se tivessem passado de maneira diferente.

21.5.12

Antes e depois de 1996 (1)

Antes de Memorial do Convento, não sabíamos ser possível conjugar a história de um evento maior da memória portuguesa com uma iluminada versão da magia que é um encontro entre pessoas que amam e sonham intensamente. Antes de Memorial do Convento, isso não existia, pelo menos para mim, quando em 1996, na pequena cidade de Torres Vedras, tinha eu dezassete anos, me fechei no quarto para cumprir a obrigatoriedade de ler esse romance que constava do programa de leituras para estudantes do ensino secundário.  Foi uma revelação para a qual estaria, até, pouco preparado, porque ninguém nos prepara para o facto de em plena adolescência sermos obrigados a ler uma quantidade de obras pré-escolhidas pelo Ministério da Educação. O mais habitual é essas obras serem pouco apropriadas para quem ainda pouco ou nada entende da vida, quanto mais de literatura, e é também normal que sejam obras sem a suficiente personalidade para convencer um jovem.

18.5.12

Resumo


Deve haver uma boa razão para que isto subsista desta maneira. Deve haver. Não perguntem.

17.5.12

Madrugada


Há quem lhe chame madrugada. Não estás certo que exista. Preferes dormir.

16.5.12

Noite


Chamemos-lhe noite. Quando fechas as portas e te deixas levar. Interessa-te o amor e a simplicidade dos gestos. Não temes fechar os olhos, beber o que te oferecem aos lábios. Agora dependes apenas de ti.

15.5.12

Tarde


Chamemos-lhe tarde. Quando o mundo começa a ficar difuso. As novidades têm todas já algumas horas. A tua atenção vai-se dispersando pelos pormenores. Tudo parece, simplesmente, mais forte do que tu.

14.5.12

Manhã


Chamemos-lhe manhã. Quando da cama saltas a energia ao máximo. As ideias tensas, fortes, sentidas. A destreza afinada. A vontade, simplesmente, de conquistar o mundo.